DMT e religião

julho 21, 2008

Muito bom:

http://enteogenos.wordpress.com/2006/07/30/budismo-e-dmt/

http://enteogenos.wordpress.com/2006/05/03/ayahuasca-e-budismo/

O Evangelho de Tomé

junho 27, 2008

Para a introdução dos evangelhos apócrifos leia esse post passado.

Introdução

O caráter esotérico do Evangelho é reiterado no primeiro versículo, em que é dito que quem descobrir o significado dos ensinamentos de Jesus ali contidos, não provará a morte. Essa era a postura gnóstica (não confundir com agnosticismo, são coisas diferentes) daquele tempo e que continua válida em nossos dias. Como os ensinamentos de Jesus eram velados em linguagem simbólica, para descobrir a sua interpretação o discípulo teria que alcançar um elevado estado de consciência, no qual recebia a gnosis, ou seja, o conhecimento direto da verdade, uma verdadeira revelação espiritual, que conferia um estado de unidade com o Todo e a experiência da verdadeira natureza do ser, que é a alma. Como a alma é imortal, quem se identifica com a alma não experimenta a morte, ainda que inevitavelmente seu corpo físico, a vestimenta de carne da alma, venha a perecer.

Tomé, o irmão gêmeo de Jesus

Tomé é chamado logo no início do texto de “irmão gêmeo” de Jesus. Este parentesco deve ser entendido no seu sentido esotérico. Tomé seria um discípulo que havia alcançado um estado de realização interior que o tornava um gêmeo espiritual do Salvador.

Os títulos do Evangelho de Tomé e do Livro de Tomé o contendor (atribuído ao “irmão gêmeo” de Jesus) podem sugerir que “você, o leitor, é o irmão gêmeo de Jesus”. Quem compreender esses livros descobrirá, como Tomé, que Jesus é seu “gêmeo”, seu “outro eu” espiritual. As palavras de Jesus a Tomé, então, são dirigidas ao leitor: “Como foi dito que você é meu irmão gêmeo e verdadeiro companheiro, examine a si mesmo para que possa entender quem você é (…) Eu sou o conhecimento da verdade. Então, enquanto me acompanha, embora não possa compreender (isso), você já tomou conhecimento e será chamado ‘aquele que conhece a si mesmo‘. Porque quem não conhece a si mesmo não conhece nada, mas aquele que conhece a si mesmo atingiu, ao mesmo tempo, o conhecimento sobre a profundeza de tudo.” Livro de Tomé, o Contendor 1,38.7-18, em NHL. 189.

O Reino do Céus no Evangelho de Tomé:

voltajesus?

  • 3. Jesus disse: Se vossos guias vos disserem: ‘o reino está no céu’, então as aves vos precederam; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederam. Mas o reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se vos conhecerdes, sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza.

Aqui Jesus num estilo em que parece zombar dos apóstolos nos diz que o Reino não é um lugar específico, mas está dentro de nós e fora de nós. E a imagem que coloquei acima é igualmente zombeteira. Para chegar ao Reino Jesus prega o conhecimento (gnose), através dele podemos realizar (não apenas entender intelectualmente) que somos filhos do Pai Vivo, melhor dizendo saímos do Pai, mas vamos ver mais a frente que na verdade somos o próprio Pai, mas vivemos em invólucros de ignorância (ego, intelecto, astral, corpo e o mundo) e passamos vidas e vidas achando que estamos vivendo enquanto estamos dormindo e sonhando.

  • 113. Os discípulos perguntaram-lhe: Em que dia vem o Reino? Jesus respondeu: Não vem pelo fato de alguém esperar por ele; nem se pode dizer ei-lo aqui! Ei-lo acolá! O Reino está presente no mundo inteiro, mas os homens não o enxergam.

O que é o Reino afinal?

Então nos perguntamos, se o Reino não está aqui nem ali, não é algo físico, material, mas algo que está presente dentro e fora e que podemos realizar através dessa gnose, o que exatamente é o Reino?

Ora, o Reino que Jesus fala é o mesmo que realizar internamente o Pleroma dos gnósticos, o Brahman (em alguns ramos o Parabrahman) dos hinduístas, o Ain Soph dos Cabalistas, o Tao dos Taoístas, chame também de o Uno, o Absoluto, o Todo, o Supremo, a Plenitude e por aí vai. E quando Jesus fala de Pai ele está falando do mesmo conceito:

  • 15 Jesus disse: “Quando virdes aquele que não foi nascido de uma mulher, prostrai-vos com a face no chão e adorai-o: é ele o vosso Pai.”
  • 50 Jesus disse: “Se vos perguntarem: ‘De onde vindes?’ respondei: ‘Viemos da luz, do lugar onde a luz nasceu dela mesma, estabeleceu-se e tornou-se manifesta por meio de suas imagens’. Se vos perguntarem: ‘Vós sois isto?’ digam: ‘Nós somos seus filhos e somos os eleitos do Pai vivo’. Se vos perguntarem: ‘Qual é o sinal de vosso Pai em vós?’, digam a eles: ‘É movimento e repouso’”.

Ou seja, quem é o Pai? É aquele que não foi gerado por ninguém, ou ainda aquela que nasceu dela mesma.

E o que esses conceitos significam? Quem é esse Tao de Deus afinal?

Quem é esse Tao de Deus afinal?

Deus


A Pleroma (Ain Soph, Tao…) é algo inefável, ou seja, algo que não pode ser expresso ou explicado por palavras, pois está além da nossa compreensão, de acordo com um dos livros sagrados do taoísmo (Tao te ching): “O Tao que pode ser dito não é o Eterno Tao”. No decorre da história humana temos chamado o Pleroma de Deus, mas esse conceito é diferente do conceito de Deus na mente das pessoas hoje. O Pleroma é um não-ser, não manisfesto e não criador. Acredita-se (pelo gnosticismo) que quem tenha criado os mundos sejam seres que emergiram da Pleroma, por esse pensamento o Deus do Antigo Testamento, não é o Deus verdadeiro, mas um Demiurgo, um deus imperfeito criador de um mundo imperfeito, assassino, invejoso, impiedoso, destruidor de cidades inteiras e se acha o único Deus do universo, e quem já leu algo do Antigo Testamento sabe exatamente do que falo. Cristo teria vindo ao mundo para trazer as boas notícias (evangelho) sobre a mentira do Demiurgo e a verdade de Deus libertando pela gnose o povo do julgo da ilusão.

Ok, mas gnosticismo é muito estranho e eu não acredito nisso!

chackras

Essas histórias de liberdade da alma ou união com o Pleroma não é apenas oriundo do gnosticismo. Podemos citar inúmeros mestres hinduístas que uniram suas Almas (Atman) ao Brahman e realizaram o Samádhi, ou o Siddartha que obtêm o nirvana se libertando da ignorância e do nosso mundo ilusório e material (Maya) e se tornando o Buddha ( aquele que despertou, acordou da ignorância ). Veja só a palavra ignorância aparecendo novamente contrastando com a gnose (conhecimento), ou seja, quem obtêm a gnose (realização da verdade) de que vivemos em um mundo ilusório (maya, matrix, ilusão cósmica, a sobreposição a Brahman) criado por um Demiurgo que nos aprisiona se torna um iluminado, acorda da ignorância e se torna um com o Pai. O último exemplo é justamente esse, Jesus nos evangelhos bíblicos diz: “Eu e o Pai somos um” expressa justamente sua união com o Pleroma, sua liberdade do mundo físico e portanto ao contrário dos outros homens ( O Reino está presente no mundo inteiro, mas os homens não o enxergam ) ele tinha essa Verdade realizada dentro de si (gnose).

Outra passagem que reforça o dito:

  • 77 Disse Jesus: Eu sou a luz, que está acima de todos. Eu sou o “Todo”. O Todo saiu de mim, e o Todo voltou a mim. Rachai a madeira – lá estou eu. Erguei a pedra – lá me achareis.

Jesus na passagem abaixo nos diz que originalmente viemos do Reino e para ele retornaremos.

  • 49 Jesus disse: “Bem aventurados os solitários e os eleitos, pois encontrareis o Reino. Pois, viestes dele e para ele retornareis.”

Nessa Jesus ensina budismo básico:

  • 24 Seus discípulos disseram-lhe: “Mostra-nos o lugar onde estás, pois precisamos procurá-lo.” Ele disse-lhes: “Aquele que tem ouvidos, ouça! Há luz no interior do homem de luz e ele ilumina o mundo inteiro. Se ele não brilha, ele é escuridão.”

E em diversos outros Jesus fala sobre o desapego material e até mesmo o desapego às pessoas (55), o que é também dito nos evangelhos bíblicos. No versículo 54 isso fica óbvio, é importante ter em mente que Jesus empregou a palavra pobre no sentido de desapego ao mundo material que como já comentei é uma ilusão (maya, matrix).

  • 54 Jesus disse: “Bem-aventurados os pobres, pois vosso é o Reino do céu.”
  • 55 Jesus disse: “Aquele que não odiar (abandonar) seu pai e sua mãe não poderá se tornar meu discípulo. E quem não odiar (abandonar) seus irmãos e irmãs e tomar sua cruz, como eu, não será digno de mim.”

Há varias outras passagens sobre o desapego, mas não vou cobri-las aqui.

Quem entra no Reino?

ceu

  • 22. Jesus viu crianças de peito a mamarem. E ele disse a seus discípulos: Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino? Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, e o exterior como o interior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino – então entrareis no Reino.

Aqui perguntam para Jesus que se eles forem crianças eles entraram no Reino. Jesus numa atitude completamente Advaita Vedanta ( sistema e filosofia hindu da não-dualidade, o Atman e o Brahman são a mesma coisas, em outros termos a Alma e a Pleroma são a mesma coisa -> eu e o Pai somos um, eu sou o Todo) diz aos discípulos para acabar com a dualidade, acabar com o Yin-Yang que originalmente eram Uno, em cada item citado isso acontece, reduzirdes dois a um, fazer interior o exterior e do exterior o interior etc.

Quer algo mais simples e direto?

  • 106. Disse Jesus: Se de dois fizerdes um, então vos fareis Filhos do Homem. E então, se disserdes a este monte “retira-te daqui” – ele se retirará.

A passagem 106, 108 e 111 chegam ainda desmistificar a figura de Jesus: mesmo sendo um ser elevadíssimo espiritualmente, Jesus nos diz claramente que quem beber da boca dele (compreender seus ensinamentos e obter a gnose) se tornará como ele, com a gnose realizada as coisas ocultas lhe serão reveladas. Na 111 vemos que quem encontrou a si mesmo (realizou a gnose) tem os céus e a terra diante deles e não conhece a morte.

  • 108. Disse Jesus: Quem beber da minha boca se tornará como eu. E eu serei o que ele é. E as coisas ocultas lhe serão reveladas.
  • 111 “Os céus e a terra se dobrarão diante de vós. E aquele que vive do Vivente não conhecerá a morte. Jesus não disse: ‘Aquele que encontrou a si mesmo, dele o mundo não é digno?’”

Agora de outra forma:

  • 46. Disse Jesus: Desde Adão até João Batista, não há ninguém maior entre os nascidos de mulher do que João Batista, porque seus olhos não foram violados. Mas eu disse: Aquele que entre vós se tornar pequeno conhecerá o Reino e será maior do que João.

João Batista tinha inúmeros seguidores e até hoje tem no Mandeísmo onde é considerado o Messias. Aqui Jesus usa a palavra pequeno não no sentido físico de ser uma pessoa pequena, mas como ser humilde e ter um ego pequeno. Buscar nosso diminuir nosso ego que é uma das maiores ilusões já criadas temos mais chance de conhecermos (obter a gnose) o Reino.

Quem mais entrará no Reino:

  • 49 Jesus disse: “Bem aventurados os solitários e os eleitos, pois encontrareis o Reino. Pois, viestes dele e para ele retornareis.”

Parábolas sobre o Reino

  • 20 Os discípulos disseram a Jesus: “Dize-nos a que se assemelha o reino do céu.” Ele lhes disse: “Ele se assemelha a uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes. Mas, quando cai em terra cultivada, produz uma grande planta e torna-se um refúgio para as aves do céu.”
  • 57 Jesus disse: “O Reino do Pai é semelhante ao homem que tem [boa] semente. Seu inimigo veio durante a noite e semeou joio por cima da boa semente. O homem não deixou que arrancassem o joio, dizendo: ‘temo que acabeis arrancando o joio e também o trigo junto com ele. No dia da colheita as ervas daninhas estarão bem visíveis e serão, então, arrancadas e queimadas”.
  • 76 O Reino do Pai é semelhante ao comerciante que tinha uma consignação de mercadorias e nelas descobriu uma pérola. Esse comerciante era astuto. Ele vendeu as mercadorias e adquiriu a pérola maravilhosa para si. Vós também deveis buscar esse tesouro indestrutível e duradouro, que nenhuma traça pode devorar nem o verme destruir.
  • 96 Jesus disse: “O Reino do Pai é como [uma certa] mulher. Ela tomou um pouco de fermento, [escondeu-o] na massa, e fez com ela grandes pães. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”
  • 97 Jesus disse: “O Reino do Pai é como uma certa mulher que estava carregando um cântaro cheio de farinha. Enquanto estava caminhando pela estrada, ainda distante de casa, a alça do cântaro partiu-se e a farinha foi caindo pelo caminho atrás dela. Ela não se deu conta, pois não tinha percebido o acidente. Quando chegou em casa, colocou o cântaro no chão e percebeu que ele estava vazio”.
  • 98 Jesus disse: “O Reino do Pai é como um certo homem que queria matar um homem poderoso. Em sua própria casa ele desembainhou a espada e enfiou-a na parede para saber se sua mão poderia realizar a tarefa. Então ele matou o homem poderoso”.
  • 107 Jesus disse: “O Reino é como um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior de todas, extraviou-se. Ele deixou as noventa e nove e foi procurá-la, até encontrá-la. Depois de ter passado por todo esse incômodo, ele disse à ovelha: ‘Eu me interesso por ti mais do que pelas noventa e nove’”.
  • 109 Jesus disse: “O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro. Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria”.

Conclusão:

O Evangelho de Tomé em sua maioria fala sobre a busca da união com Pai (Reino do Pai) que pode ser conseguida através da gnose (realização da Verdade) e o desapego material. Como já dizia Jesus: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Consulte:

http://www.guia.heu.nom.br/evangelho_de_tome.htm

http://www.levir.com.br/artigo34.php

http://paginas.terra.com.br/servicos/ecard/apocrifosonline/evangelhos_tome/atos_1.htm

http://www.gnosisonline.org/Teologia_Gnostica/index.php

http://www.geocities.com/Athens/9068/splith.htm

Bíblia, apócrifos, Igreja e Jesus.

junho 26, 2008

O Evangelho de Tomé foi um manuscrito encontrado em 1945 em uma caverna perto da cidade de Nag Hammadi, na Região do Mar Morto, provavelmente escondido lá no fim do segundo século. Foi considerado perdido durante todo esse tempo, mas já sabia-se de sua existência já que os primeiros Bispos católicos o citavam como herege direcionando os padres e outros bispos a afastá-lo (e também queimá-lo) das igrejas, assim como outros manuscritos ditos apócrifos (Apokruphoi, secreto), motivo pelo qual esse e vários outros manuscritos foram escondidos durante tanto tempo.

Felizmente esses manuscritos foram encontrados em 1945 (biblioteca de Nag Hammadi) e em 1947 (Manuscritos do Mar Morto).

Um dos mais importantes é Evangelho de Tomé. Ao contrário dos outros evangelhos conhecidos, quer sejam canônicos ou apócrifos, o Evangelho de Tomé não expõe em nada narrativas sobre a vida de Jesus de Nazaré, mas atém-se especificamente às sentenças que teriam sido proferidas por Jesus a seus discípulos. Ao todo são 114 versículos, também chamados de ditos ou logias.

Se você é católico, evangélico ou afins, preste atenção, é tão válida a leitura desse manuscrito como as dos quatro evangelhos bíblicos. O Evanhelho de Tomé foi escrito, segundo os estudiosos, por volta de 50-110 d.C., ou seja, na mesma época que os evangelhos bíblicos: 60-120 d.C. Porém lembre-se que tudo o que temos sobre Jesus são lembraças, interpretações, reflexões e por fim (não se assuste) mitos, pois ele já tinha sido crucificado a quase 30 anos antes da escritas desses evangelhos, tempo o bastante para se criarem lendas em torno do Filho de Deus. Para você ter idéia, o evangelho bíblico mais antigo é o de Marcos, escrito por volta dos 60 d.C., Marcos era discípulo de Paulo e Paulo nunca conheceu Jesus em vida, ou seja, é como você escrever sobre um mestre (Jesus) que seu professor (Paulo) nunca viu, mas apenas ouviu histórias.

Ok… ok… E porque a biblioteca de Nag Hammadi e o Evangelho de Tomé são interessantes?

Nos cristianismo ortodoxo Jesus fala em pecado e arrependimento, em Tomé e nos outros escritos encontrados em Nag Hammadi (ex: Evangelho de Maria, Evangelho de Filipe, Apócrifo de João, etc) de ilusão e iluminação.

Continuando temos o ensinamento…
De para gnose (conhecimento interno de Deus).
Do sofrimento pelo pecado para sofrimento pela ignorância (do não conhecimento da verdade interna(gnose)).
Da discriminação da mulher para mulher como tendo um papel importante e até mesmo central (Evangelho de Maria).
Do conhecimento estático (cânon bíblico) para conhecimento crescente e ininterrupto.

Do Reino de Deus como um lugar específico para o Reino de Deus como estando “dentro de vocês e fora de vocês (Evangelho de Tomé).
Da hierarquia de bispos, padres para o acesso direto a Deus através da gnose.

Bom… só pela última já da pra entender porque a igreja queimou tanto esses manuscritos “hereges” quanto seus seguidores…

Observação: Estou levando em conta outros evangelho sem ser o de Tomé e é importante deixar claro que muitas das colocações acima também estão nos evangelhos bíblicos dependendo ou não das interpretações.

Após derrame, neurocientista alcança “o nirvana”

junho 21, 2008

Leslie Kaufman

A neurocientista Jill Bolte Taylor trabalhava no centro de pesquisa cerebral da Universidade Harvard quando chegou ao nirvana. Mas o fez tendo um derrame. Em 10 de dezembro de 1996, Taylor, que então tinha 37 anos, acordou em seu apartamento perto de Boston com uma dor penetrante por trás do olho. Um vaso sangüíneo havia estourado em seu cérebro. Em poucos minutos, o lobo cerebral esquerdo – a fonte do ego, da análise, do juízo e do contexto – começou a falhar. Estranhamente, a sensação era ótima.

O ruído incessante que costumava ocupar seus pensamentos desapareceu. As preocupações cotidianas de sua vida – sobre seu irmão esquizofrênico e seu emprego desgastante – romperam as amarras e se foram. E suas percepções também mudaram. Ela começou a perceber os átomos e moléculas de seu corpo e como eles se combinavam com o espaço que a cercava; o mundo todo e as criaturas que ele contém eram todos parte do mesmo, e magnífico, campo de energia reluzente.

“Minha percepção das fronteiras físicas deixou de estar limitada ao contato de minha pele com o ar”, escreveu Taylor em My Stroke of Insight, seu livro de memórias, que acaba de ser publicado. Depois de experimentar dor intensa, ela afirma, seu corpo se desconectou de sua mente. “Eu me sentia como um gênio libertado da garrafa”, afirma no livro. “A energia do meu espírito parecia fluir como uma grande baleia percorrendo um mar de euforia silenciosa”.

Enquanto seu espírito ascendia, seu corpo lutava pela sobrevivência. Ela tinha um coágulo do tamanho de uma bola de golfe no interior da cabeça, e sem o uso do hemisfério esquerdo do cérebro, ela perdeu funções analíticas como a capacidade de falar, de compreender números ou letras e, inicialmente, até a de reconhecer sua mãe.

Um amigo a levou ao hospital, onde passou por uma cirurgia, seguida por oito anos de recuperação. O desejo de contar aos outros sobre o nirvana, conta Taylor, a motivou fortemente a reintroduzir seu espírito no corpo e se curar.

A história de Taylor não é comum entre os pacientes de derrames. As lesões no lobo esquerdo do cérebro em geral não conduzem a uma prazerosa iluminação; as pessoas muitas vezes afundam em um estado de irritabilidade constante, e perdem o controle de suas emoções. Taylor também foi ajudada pelo fato de que o hemisfério esquerdo de seu cérebro não foi destruído, e isso provavelmente explica porque ela conseguiu se recuperar plenamente.

Hoje ela se diz uma nova pessoa, capaz de “penetrar a consciência de meu hemisfério direito” sempre que assim deseja, e de ser “uma com a totalidade da existência”. E ela diz que isso nada tem a ver com a fé, e sim com a ciência. Taylor oferece profunda compreensão pessoal a algo que havia estudado por muito tempo: a grande diferença entre as personalidades das duas metades do cérebro.

O hemisfério esquerdo em geral nos fornece contexto, ego, tempo, lógica. O hemisfério direito nos oferece criatividade e empatia. Para a maioria das pessoas de fala inglesa, o hemisfério esquerdo, que processa a linguagem, é dominante. A percepção de Taylor é que isso não tem necessariamente de ser verdade.

A mensagem dela, a de que as pessoas podem escolher viver uma vida mais pacífica e espiritual deixando de lado a porção esquerda do cérebro, atrai muita gente.

Em fevereiro, ela palestrou na conferência TED, sobre tecnologia, meio ambiente e design, um fórum anual para a apresentação de idéias científicas inovadoras. O resultado foi eletrizante. Depois que sua palestra de 18 minutos foi postada no site da TED, ela se tornou uma espécie de celebridade instantaneamente.

Mais de dois milhões de pessoas assistiram ao vídeo, e mais de 20 mil ao dia continuam a fazê-lo. Ela também concedeu uma entrevista veiculada no site de Oprah Winfrey e foi escolhida como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008, pela revista Time.

Também recebe mais de 100 e-mails de fãs ao dia. Alguns deles são cientistas especializados no estudo do cérebro, fascinados com o fato de que uma colega tenha sofrido um derrame e agora tenha podido retornar e traduzir essa experiência nos termos que eles estão acostumados a empregar. Outros são vítimas de derrames ou profissionais de saúde que trabalham nessa área, interessados em contar suas histórias e em agradecê-la pela franqueza.

Mas muitos dos que a procuram têm interesse em fenômenos espirituais, especialmente budistas e praticantes de meditação, para os quais a experiência pela qual ela passou confirma sua crença de que existe um estado de alegria ao qual se pode chegar.

Taylor decidiu estudar o cérebro – e obteve um doutorado em ciências com especialização em neuroanatomia -, porque seu irmão enfrentava uma doença mental e sofria ilusões de que estava em contato direto com Jesus. E de seu antigo laboratório de pesquisa em Harvard, ela continua a falar em defesa das pessoas mentalmente doentes.

Mas reduziu sua carga imensa de trabalho. Ela vive em beco arborizado a alguns minutos de distância da Universidade de Indiana, onde fez seu curso de graduação e onde hoje leciona na Escola de Medicina.

O vestíbulo da casa está pintado de uma cor púrpura intensa. Ela recebe os visitantes com abraços calorosos e, quando fala, seus olhos de um azul pálido não se desviam dos olhos de seus interlocutores. Solteira, ela vive com seu cachorro e dois gatos, e não hesita em definir sua mãe, 82 anos, como sua melhor amiga.

Taylor diz que escreveu suas memórias porque acredita que haja muito de aproveitável em sua experiência, no que tange à recuperação de pacientes de trauma cerebral.

Quanto a questões mais sérias, como a paz mundial, ela diz que não sabe como atingi-la, mas acredita que o hemisfério direito do cérebro possa ajudar – ao menos foi o que disse na conferência TED. “Creio que quanto mais tempo usarmos os circuitos de paz de nosso hemisfério direito, mais paz projetaremos no mundo, e mais pacífico será o planeta”. Quase parece ciência.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2924685-EI298,00.html

maio 20, 2008

A carne é fraca:

http://www.youtube.com/watch?v=EghRqeZA-TU

A carna é fraca 2:

http://www.youtube.com/watch?v=SKz6sgnUgdg

Istoé: mitos e verdades

Quem tem a consciência expandida, não contribui com mortes

O que dizem os sonhos

maio 19, 2008

http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2011/artigo89078-1.htm

Frases sobre vegetarianismo

maio 16, 2008

“Um dia virá em que os seres humanos se
contentarão com uma alimentação vegetariana, e
julgarão a matança de um animal inocente como
hoje se julga o assassínio de um homem.”

Leonardo da Vinci

* * *

“O comer carne é a sobrevivência da maior
brutalidade; a mudança para o vegetarianismo é a
primeira conseqüência da iluminação.”

Leon Tolstoi

* * *

“Se os matadouros tivessem paredes de vidro,
todos seriam vegetarianos.”

Paul McCartney

* * *

“Deveríamos ser capazes de recusar-nos a viver se o preço da vida é a
tortura de seres sensíveis.”

Mahatma Gandhi

* * *

“Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as chances de
sobrevivência da vida na terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana.
A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o
temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino
da humanidade.”

Albert Einstein

A última viagem do criador do LSD

maio 7, 2008

Stanislav Grof – A Psiquiatria da Nova Consciência

maio 6, 2008

(retirado do site)

Partindo de experiências com o LSD, o psiquiatra tcheco Stanislav Grof desenvolveu a prática da respiração holotrópica, que leva o homem a vivenciar estados alterados de consciência.

Por Paulo Urban – é médico psiquiatra e psicoterapeuta. E-mail: paulourban@ig.com.br

Kleide Teixeira

Estudos recentes feitos pela neurociência revelam que cerca de 50 bilhões de neurônios operam em nosso cérebro, isso sem contar os 500 bilhões de células nervosas da glia, a sustentar esse tecido. Os neurônios comunicam-se entre si por meio dos neurotransmissores, substâncias químicas específicas descarregadas a partir de estímulos bioelétricos nas sinapses, o espaço virtual existente entre as terminações nervosas de uma célula e o corpo da seguinte. A quantidade de ligações que um neurônio do córtex cerebral pode estabelecer com células nervosas circunjacentes é variável. Numa progressão exponencial de ligações, estima-se que cada neurônio possa num átimo impressionar centenas de milhares ou milhões de outros, envolvendo sinapses que, em seu conjunto, bem ultrapassam a casa dos trilhões. Tal complexidade faz da Internet, ainda que seus 600 milhões de usuários se conectassem ao mesmo tempo, mera maquete do processo neuronal!

Rogério Borges
Alucinógenos: capacidade de abrir a consciência para percepções incomuns.

Dessas contundentes premissas visualizemos um salto conclusivo: poderá a crescente complexidade da rede cibernética chegar a emitir algum pensamento próprio, ainda que rudimentar, fruto das mutações inerentes aos processos evolutivos? E das relações entre pensamentos simples não nasceriam juízos demarcando o surgimento de uma nova consciência planetária, a sobrepor-se à matriz arcaica que a Terra toda, como rocha, guarda inconscientemente de si mesma? Fosse isso possível, não estaria aí o portal que nos falta para uma comunicação efetiva com inteligências extraterrestres, que só não ocorreu até agora porque nosso planeta ainda não expandiu suficientemente seus potenciais latentes? Arthur Clarke, autor do clássico 2001, Uma Odisséia no Espaço, bem explorou o tema do computador inteligente, Hal, que decidiu lutar contra os astronautas que pretendiam desligá-lo. Também previu, ao dar seguimento à sua ficção, nosso contato para 2010. Não seria Clarke um escritor visionário tanto quanto o foi Júlio Verne (1828-1905), que antecipou em Da Terra à Lua (1865) detalhes impressionantes que se realizaram precisamente em julho de 1969, quando a nave Apolo 11 conquistou de fato a Lua?

Paremos de especular; deixo ao leitor o desdobrar desses pensamentos que navegam pela ficção científica. Mas confesso-lhes uma coisa: posso descrever assim, como se lhes narrasse um sonho agradável, meus devaneios de “lógica quântica” que me ocorreram durante meros segundos de reflexão, em meio à prática da respiração holotrópica, processo propiciador de estados alterados de consciência, que tenho rotineiramente aplicado à minha vida.

Prensa Três
Hippies das décadas de 60 e 70: adoção do LSD como símbolo do movimento da contracultura.

Mas o que vem a ser respiração holotrópica? Quem cunhou o termo, em 1992, foi o psiquiatra tcheco Stanislav Grof, há mais de 40 anos pesquisador dos estados incomuns da consciência. Holos em grego significa “totalidade”; tropein traduz-se por “dirigir-se a”, “orientar-se para”. Respiração holotrópica é aquela cuja prática amplia a consciência, levando-a a uma experiência de transcendência e inteireza.

Tudo começou em 1956, quando a Faculdade de Medicina de Praga, da qual Grof era médico residente, recebeu do laboratório Sandoz uma substância recentemente sintetizada em Basel (Suíça) pelo químico Albert Hofmann, que propunha aplicar o fármaco no tratamento das psicoses. Grof foi um dos voluntários para experimentar a nova droga, cujas propriedades psicoativas revelaram-se notáveis. Era o LSD-25, ou ácido lisérgico. O jovem médico refere-se à sua primeira sessão psicodélica como algo indescritível, cuja culminância o levou à consciência cósmica.

Por toda a década seguinte, as experiências psicodélicas de Grof no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica de Praga repercutiram amplamente. Em 1967, mudou-se para Baltimore (EUA), a convite do Centro de Pesquisas Psiquiátricas de Maryland, onde prosseguiu seu trabalho. Em 1973 foi nomeado professor no Instituto Esalen, em Big Sur, Califórnia, onde morou até 1987. Atualmente, Grof acumula quase cinco décadas dedicadas ao estudo dos estados alternados de consciência.

Leandro Pimentel
Gilberto Gil: experiências litúrgicas de expansão da consciência com a ajuda do ácido lisérgico.

Grof coordenou mais de quatro mil sessões de LSD em dezenas de milhares de pessoas, pacientes ou voluntários, os quais lhe forneceram extenso material, que o levou a descobertas revolucionárias sobre o psiquismo. Ele concluiu que o LSD e demais alucinógenos, como a psilocibina, a mescalina, a triptamina e semelhantes, funcionam como amplificadores e catalisadores das atividades psíquicas, capazes que são de abrir a consciência para percepções incomuns e precipitar experiências espirituais extraordinárias, fazendo emergir conteúdos inconscientes que jamais seriam explorados de outra forma.

Além disso, o espírito investigador de Grof o levou ao contato com xamãs de toda a América e a trocar informações com antropólogos e representantes de antigas doutrinas, como a ioga, o budismo, o tantrismo, o zen e a ordem beneditina, entre outras. O médico interessou-se ainda pela parapsicologia, focalizando-se nas experiências do quase-morte. Na mecânica quântica, encontrou base científica para várias concepções cosmogônicas religiosas, incluindo a possibilidade de curas espirituais, além de crença fundamental de que algo, de alguma forma, sobrevive à morte física.

Em fins dos anos 60 e início dos 70, aplicou a terapia psicodélica em pacientes cancerosos terminais. Em Psicoterapia Pelo LSD, 1980 (não traduzido), descreveu detalhadamente as pesquisas que o conduziram à certeza de que os alucinógenos, longe de seu propagado caráter tóxico, podem ser administrados de modo diligente, não indiscriminadamente a todo e qualquer caso, mas sob a supervisão de terapeutas preparados, visando a uma profunda reformulação do universo psicológico daqueles que os usam, de modo que muitos aspectos da personalidade que requeiram tratamento possam ser especialmente trabalhados.

Prensa Três
Sigmund Freud, pai da psicanálise: primeiros passos no vasto universo do inconsciente humano.

“As portas da percepção são os sentidos, quando se os transcende, tudo o que resta é o infinito”, escreveu o poeta britânico William Blake (1757-1827), adepto do haxixe. A frase inspirou seu conterrâneo Aldous Huxley (1894-1963), que intitulou Portas da Percepção (1954) o livro em que narra suas experiências sistemáticas com a mescalina. O tema fora introduzido no Admirável Mundo Novo (1932) e voltaria a ser explorado no romance A Ilha (1963). A mescalina é o alucinógeno extraído do peyote, o mesmo cacto mexicano que proporcionou a Carlos Castaneda (1935-1998) compor sua extensa obra de ensinamentos recebidos de seu mestre índio Don Juan. Mas Huxley também experimentaria o LSD; quem o ofereceu a ele foi o psiquiatra inglês Humphry Osmond, outro pesquisador que se valia do ácido para fins terapêuticos, na Universidade de Saskatchewan, criador do termo psicodélico (do grego psico = alma, mente + delos = manifestação, evidência).

Cerca de 20 anos após sua síntese laboratorial, o LSD-25 se tornaria símbolo do movimento artístico da contracultura que se opunha à Guerra Fria, à intervenção bélica sobre o Vietnã, aos conflitos políticos dos anos 60 e 70, espalhados pelo mundo. Os Rolling Stones e os Beatles, entre outros grupos, declaravam-se adeptos do ácido. Lucy in the Sky with Diamonds (1967), música cujas iniciais do título esclarecem seu desregrado poético, apresenta imagens próprias do psicodelismo. No Brasil, a Tropicália achava-se afinada com as transformações culturais da época. Gilberto Gil, por exemplo, relata haver tomado algo entre 68 e 74 ácidos lisérgicos, e comenta: “Foram experiên-cias litúrgicas de expansão da cons-ciência. (…) nunca tive bad trip nem problemas colaterais…”

Incomodando sensivelmente o status quo da política norte-americana, o ácido seria proibido primeiramente nos Estados Unidos entre 1965 e 68. Mesmo com as restrições legais, Grof ainda participaria de importantes projetos de pesquisa sobreviventes, mas, pouco a pouco, viu-se obrigado a abandonar o uso criterioso do LSD no tratamento de seus pacientes. Para substituí-lo, ao lado de sua segunda esposa, Christina, desenvolveu a técnica indutora de estados alterados de consciência, à qual chamou de “respiração holotrópica”.

Rogério Borges
Carl Gustav Jung: formulação da hipótese do inconsciente coletivo, depositário das experiências evolutivas da humanidade.

Para que o leitor entenda o alcance do trabalho de Stanislav Grof, reportemo-nos primeiramente ao pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939). Freud abriu as portas do inconsciente para que a psiquiatria por ele entrasse. Postulou que desde o nascimento o inconsciente está presente no ser humano, surgindo, entretanto, como uma tela em branco, sobre a qual vão sendo impressas as marcas de nossas experiências ao longo do desenvolvimento da personalidade. Nele ficariam gravados nossos recalques e todas as demais tendên-cias potencialmente incompatíveis com a vida consciente, como o são os desejos sexuais culturalmente reprimidos. Chamou de Complexo de Édipo, seu principal exemplo, à atração incestuosa que a criança apresenta na primeira infância pelo genitor de sexo oposto ao seu, sentimento este que mais tarde passa a ser censurado pelo superego. Procurando manifestar-se de alguma forma, porém, o conteúdo reprimido tanto explode disfarçadamente em nossos sonhos como gera, a partir de seu núcleo, as chamadas neuroses.

Já o psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961), inicialmente discípulo de Freud, divergindo do mestre em muitos pontos, aprofundou-se no reino anímico, ultrapassando os conceitos do inconsciente freudiano, resultado de recalques de experiências meramente biográficas. Jung explorou a hipótese do inconsciente coletivo, instância absolutamente impessoal e arcaica, depositária das experiências evolutivas do universo, incluindo as da humanidade como um todo. Para a psicologia junguiana, a psique é, essencialmente, o universo. Depreendemos daí que entre matéria e psiquismo não há diferenças senão na forma como se manifestam seus atributos. Logo, o psiquismo não pode ser considerado propriedade da psicologia acadêmica nem da neurociência, ele está presente em toda a parte; responde tanto por seus fenômenos mentais quanto pelo comportamento evolutivo do universo inteiro.

Manoel Marques
Processo de gestação e nascimento: inesgotável fonte de registros e traumas em nosso psiquismo.

Extraindo peremptórias abstrações de uma leitura que fiz sob efeito da respiração holotrópica, da “Conclusão” do último livro de Jung, O Homem e Seus Símbolos (1961) – capítulo escrito por sua discípula Marie L. Von Franz, cujas palavras valem como as testamentais do mestre –, chego a supor que, sem o auxílio da mecânica quântica, a psicologia toda esteja fadada ao desaparecimento como discurso eficiente. A psicanálise de Freud, apesar de seu inegável valor histórico, acha-se hoje tão ultrapassada quanto a mecânica de Newton, e encontra validação apenas para explicar eventos corriqueiros de nossa realidade psíquica imediata, assim como a física clássica só funciona bem para compreender fenômenos celestes preexistentes à descoberta dos chamados buracos negros, entidade astrofísica que vem forçando a ciência a mudar seus paradigmas. Além disso, as teorias sobre o comportamento insólito da luz e as pesquisas atômicas, que trazem à tona uma miríade de subpartículas, são paradoxos que escapam ao modelo clássico do universo fechado.

É justamente neste ponto que surge o trabalho de Stanislav Grof, aliado às tendências da nova física, provocador de uma guinada do pensamento acadêmico sobre o mar da consciência.

Segundo Grof, ao nascer já trazemos em nosso inconsciente a memória das experiências intra-uterinas, que ele chama de domínio perinatal. O processo todo de gestação e nascimento passa por quatro fases ou matrizes, responsáveis pela estruturação da personalidade. A primeira matriz se estende do ato da concepção até o instante em que se inicia o trabalho de parto, e nela estamos imersos primordialmente, ligados à fonte original de vida em meio ao fluido maternal. A segunda matriz se imprime em nosso psiquismo ao primeiro instante do trabalho de parto. A terceira sobrepõe-se quando se inicia o primeiro grande conflito humano, ainda uma realidade intra-uterina, a luta do feto pela vida, enquanto avança em pleno trabalho de parto em direção à luz. A quarta responde pelo momento crucial de morte-renascimento; traduz a espera do feto, já expulso, pelo corte de seu cordão umbilical.

Tudo isso determina inesgotável fonte de registros em nosso psiquismo, bem como traumas de toda espécie e intensidade relacionados ao amplo processo de gestação e parto. Tais vivências podem ser recuperadas, atualizadas e tratadas, segundo Grof, por meio de sua terapia holotrópica, que preconiza exercícios de hiperventilação. Afinal, a parturiente sempre tem sua freqüência respiratória muito aumentada, e as contrações uterinas privam momentaneamente o feto de oxigênio. Isso cria um estado biopsíquico matricial que nos impressiona fundamentalmente, capaz de formar arcabouços sobre os quais nossos comportamentos, saudáveis ou não, neuróticos ou psicóticos, irão se estruturar.

Validando o conceito do self junguiano como núcleo da alma e ao mesmo tempo portal para experiências transcendentes, ao analisar milhares de sessões sob a prática holotrópica, Grof identificou ainda a existência do chamado domínio transpessoal, alcançado por estados alterados de consciência, condição em que comungamos de conteúdos arquetípicos, próprios do inconsciente coletivo.

Jung admirava o físico Wolfgang Pauli, para quem “o homem, ao pesquisar o universo, encontra-se a si mesmo”. A psicologia analítica toda, aliás, é um convite à mecânica quântica para que, de mãos dadas, completem-se mutuamente e dêem seus passos em direção à transcendência. Da mesma forma, o revolucionário Grof insere sua obra em meio às especulações dos astrofísicos Fritjof Capra e David Bohm, reconhece em si a influência do mitologista Joseph Campbell e recomenda as idéias do biólogo Rupert Sheldrake. Na pedagogia, quem mais se afina com Grof é Joseph Chilton Pearce, autor de A Criança Mágica, que também defende uma teoria própria de matrizes aplicadas ao desenvolvimento das crianças, e propõe que nosso cérebro funcione tal qual um holograma do universo.

O mais recente livro de Grof, Psicologia do Futuro (Ed. Heresis), expõe amplamente os princípios da terapia holotrópica, avaliando suas indicações e restrições, visto que ela propicia dramáticas mudanças de percepção a facilitar inspiradores insigths intelectuais e emocionais relativos à nossa história pessoal, aos nossos entraves emocionais, neuroses, problemas de relacionamento, questões existenciais, etc. Tais estados, aponta Grof, nunca foram novidade para as culturas pré-industriais, haja vista que doutrinas espirituais milenares e ritos xamânicos de qualquer tipo sempre os levam em conta, seja por meio de rituais complexos a envolver danças, repetições de mantras, beberagens psicoativas, meditação profunda, etc., quer por outros métodos, ou por esses todos em conjunto.

Longe de classificar como simples estado patológico qualquer desvio perceptual mais intenso, a terapia holotrópica estimula a ocorrência de processos psíquicos extraordinários, capazes de trazer aos indivíduos maior compreensão sobre si mesmos e sobre a natureza na qual estamos inseridos. De fato, a respiração é o instrumento da vida. E a inspiração, como esta de que Grof está dotado, mero detalhe de genialidade artística!

GNOSE PRA CHAPAR (sobre Terence McKenna)

maio 6, 2008

Ricardo Rosas (retirado de http://www.rizoma.net/interna.php?id=135&secao=neuropolitica)

O mundo vai se acabar em 2012. Entraremos então na Supermente, o Logos, matriz de toda a linguagem. O OVNI é uma inteligência superior com que podemos entrar em contato através dos cogumelos. A realidade virtual transformará os sons em imagens. As raves são espaços privilegiados para a transcendência e superação do ego. Estamos agora no limiar de um retorno à cultura arcaica e ao xamanismo. Todas essas idéias e memes estão inevitavelmente ligados a Terence McKenna.

Falecido em 03 de abril deste ano, McKenna era considerado por muitos o sucessor de Timothy Leary. Guru psicodélico, McKenna era um explorador do caminho aberto por Huxley, Wasson, Leary, Metzner e outros no estudo dos efeitos das substâncias psicodélicas sobre a imaginação humana. Seu objeto de estudo, ao contrário de Leary, não eram produtos de laboratório como o LSD, nem mesmo o símbolo da geração bpm, o ecstasy. Não, McKenna era mais natureba e seus principais focos de atenção eram os cogumelos que contivessem psilocibina, e o DMT, um psicoativo poderoso presente no ahayausca ou mais conhecido no Brasil como Santo Daime.

O DMT, quando fumado, produz um estado alterado de consciência por cerca de cinco minutos que, dependendo da quantidade utilizada, proporcionaria visões que nos permitiriam ter acesso a uma forma superior de inteligência extraterrestre presente desde tempos imemoriais em simples cogumelos silvestres como o Stropharia cubensis . Esta forma não humana de inteligência pode dialogar com o homem neste estado e seria na verdade uma matriz da linguagem proveniente do Logos ou Supermente criadora de todo o padrão presente na natureza desde a sua criação. Pequenos trols e duendes mecânicos falando através de imagens poligonais e bolas de basquete de cristal. Muito pirado? Pois isso é só o começo…

McKenna é um filho típico da contracultura dos 60 e foi estudante em Berkeley. Ao contrário da geração anterior, no entanto, Mckenna não fez o drop-out ( cair fora ) dos hippies. Trouxe, isso sim, o fruto de seus estudos sobre os psicodélicos naturais para um publico vasto e não só acadêmico. Seu esforço em estudar os efeitos desses psicoativos ao longo de toda a vida vem no bojo de uma geração que pode hoje em dia dissertar sobre os psicodélicos em centros de estudo relativamente considerados como Esalem ou o Instituto de Ciências Noéticas.

Seu nome é tão importante quanto o de psicanalistas como Leary, Ralph Metzner ou Stanilav Grof, o estudioso de golfinhos Dr. John Lilly, o bioquímico Rupert Sheldrake ou o matemático Ralph Abraham. Com estes dois últimos por sinal publicou um livro, traduzido no Brasil pela editora Cultrix, chamado Triálogos. Nele são discutidos temas científicos e holísticos como a teoria do caos, a hipótese Gaia, campos morfogenéticos, realidade virtual e êxtases xamãnicos. Junto com Sheldrake e Abraham, McKenna toca em temas vitais para a fringe science (ciência alternativa) de nossa época. A física quântica e a teoria do caos têm permitido à ciência entrar em terrenos antes considerados tabu, e já não parece nem um pouco estranho falar de uma consciência global do planeta, nem em rituais xamãnicos como instrumento de cura.

Tudo isso faria parte de um movimento da humanidade de retorno à cultura arcaica dos povos primitivos e, nesse sentido, as tribos indígenas seriam verdadeiros repositórios da inteligência milenar do planeta e guardiões dos segredos das plantas, do ecossistema e do próprio espírito de Gaia, a Terra.

Esta nova consciência, que já estaria latente em toda a arte e cultura do século vinte como nostalgia do arcaico, muito mais que “ nova era ”, seria o que McKenna denomina de revival arcaico ( archaic revival ), nome por sinal de um de seus livros traduzidos em português, aqui intitulado O Retorno à cultura arcaica. Não muito longe está McKenna do que o cientista Thomas Kühn sabiamente chamou de “ mudança de paradigma” em meados dos anos 60, ao se referir ao estado da ciência com a trilha aberta pela teoria da relatividade e a física quântica, uma vez que o determinismo mecanicista da era de Descartes cai por terra.

McKenna escreveu muitos livros (alguns com seu irmão Dennis, neurobiólogo e etnobotanista), entre os quais O alimento dos deuses (ed. Record, 1995), Alucinações reais ( ed. Record, 1993) The Invisible Landscape (Seabury, 1975) e o livro ilustrado ( com o artista Tim Ely) Synesthesia (Granary Books, 1992). No primeiro, McKenna explora a hipótese de que o ser humano adquiriu a linguagem e a reflexão a partir da ingestão de cogumelos na pré-historia, tese antes cogitada por Henry Munn em Os cogumelos da linguagem ( Oxford University Press, org. Michael Harner, 1973). O livro explora igualmente todo um leque de estimulantes e estupefacientes desde o açúcar, o café e o tabaco passando pelo álcool até chegar na maconha, no cogumelo e no Soma, a bebida sagrada dos Vedas. Junte a isso, dados históricos de civilizações desaparecidas, estudos de hábitos alimentares e uma antevisão do futuro, e o livro se afigura como uma nova abordagem do surgimento da consciência humana.

Em Alucinações reais, McKenna narra a viagem feita por ele com o irmão à floresta amazônica, buscando os psicodélicos naturais da selva com o auxílio de nativos. Essa viagem marcaria para sempre a vida dos dois irmãos e sua importância mítica na trajetória de ambos fez dela muito mais um rito iniciático que uma exploração de caráter científico. Os insights e visões alucinantes com revelações surpreendentes geraram não apenas a narrativa da aventura em Alucinações como seu antecessor, o incrível e estranho The Invisible Landscape.

Autêntico cult psicodélico escrito junto com seu irmão Dennis McKenna, The Invisible Landscape – Mind hallucinogens and the I-Ching ( ainda sem tradução para o português) é a primeira tentativa de interpretar o choque da revelação de suas experiências com os alucinógenos amazônicos num livro que se utiliza tanto da ciência como da filosofia ocidentais, como diz no prefácio Jay Stevens, autor do super cultuado Storming Heaven – LSD and the american dream. A paisagem invisível de McKenna seria visível nos estados alterados de consciência e nas revelações que trariam consigo. O xamanismo e a esquizofrenia como estados de acesso alterado da mente que por sua vez seriam a base de uma teoria holográfica da mente. Dennis compara os estados da mente sob o efeito de psicodélicos em termos neurobiológicos, culminando com as revelações acontecidas em La Chorera. A segunda parte é Terence interpretando a revelação do cogumelo e tudo para dar a base para sua hipótese de estudar o calendário lunar sob a ótica do I-Ching, hipótese essa que lhe teria sido sugerida por uma estranha inteligência insectóide.

“Nós podíamos sentir a presença de alguma entidade hiperespacial invisível, um alien, que parecia estar nos observando e algumas vezes exercendo influência na situação para nos manter movendo gentilmente para uma resolução experimental das idéias que vínhamos tendo. Por causa da natureza alienígena do transe de triptamina, sua aparente acentuação de temas alienígenas, insectílicos, e futuristas e devido a experiências prévias com triptamina em que transformações alucinatórias e insectílicas de seres humanos foram observadas, nós fomos levados a especular que o papel daquele ser era algo como aquele de um antropólogo vindo dar à humanidade as chaves para a cidadania galáctica” .

O estudo do I-Ching sugerido pela inteligência desconhecida revelou que haveria um padrão rítmico no tempo, um ritmo que dançaria em sua cadência pelo milênio até chegar num Ponto Ômega que os McKenna calcularam como sendo o ano 2012. A onda-tempo zero, o fim da história. As análises de dados calculados com base nos hexagramas do I-Ching do que seria uma ressonância temporal de novidades mostram que em 2012 estaremos chegando a uma culminação tamanha de entrada de novidades na esfera dos acontecimentos que chegaremos a um ponto máximo de sublimação temporal. É igualmente quando acaba o calendário maia. Em que ecoem Theilhard de Chardin, as idéias de McKenna sobre o ponto ômega deixam mais claro seu fundo gnóstico, como será visto a seguir, e os irmãos têm uma data precisa para seu acontecimento: 22 de dezembro de 2012, quando o mundo cessar de existir tal qual o conhecemos, quando nos uniremos com a entidade cósmica superior ou Supermente global.

Tal situação, segundo McKenna, seria incrementada pela presença de um objeto desconhecido nessa data nos guiando magneticamente na direção da superação da dualidade corpo e mente pela unificação com o Logos.

Se a visão, digamos, milenarista de McKenna prevê um apocalipse, essa visão é pelo menos bem mais alegre, joyeuse, que as distopias de nossos cientistas sociais. Sua positividade é manifesta. Seu caráter festivo não passou alheio ao público raver que no boom zippie de cinco anos atrás cultuou McKenna como um legítimo profeta da pronóia (o contrário da paranóia, ou sensação de que o mundo conspira a seu favor), cuja linhagem utópico libertária teria aproximação com figuras como Charles Fourier, Wilhelm Reich, Norman O. Brown, Hakim Bey, Raoul Vaneigem, Oswald de Andrade, entre outros.

A jóia rara que é Synesthesia é o resultado de um trabalho conjunto com o artista Tim Elly, e contém desenhos originais e imagens pintadas de misteriosos glifos, mapas e devaneios visionários. Objeto só para colecionadores.

Mas o melhor livro para se introduzir no universo McKenna é sem dúvida O retorno à cultura arcaica, um apanhado geral de suas idéias, reunindo entrevistas, textos escritos para revistas, ensaios, palestras. Por sua urgência de interesse, em espantosa simbiose com o atual estado das coisas, este livro é absolutamente imperdível. O revival arcaico de McKenna nos permite leques de iluminações sobre as fronteiras da mente humana, os precursores dos estudos de psicodélicos, a realidade virtual, a idéia do OVNI como entidade psíquica autônoma.

Sua teoria é de que o extraterrestre é na verdade emanação da Supermente, “campo gerado pelos seres humanos, escapando ao controle de qualquer instituição, governo ou religião”. O OVNI desconcerta a comunidade científica e seu constantereaparecimento” na mídia cotidiana nos diz que o OVNI representa um poderoso mito de nossa época, ao qual também já se voltaram Jung e Reich. Um mito, se provada a existência, capaz de provocar um choque de proporções insuspeitadas, abalando a ciência oficial e criando uma nova religião. Esta incorporaria em torno do OVNI a mesma devoção arquetípica que o cristianismo aplicou à Ressurreição.

Igualmente surpreendentes são suas conjecturas sobre o amor extraterrestre, isso mesmo, a recente “dimensão erótica” do fenômeno dos discos voadores.

Por mais divertidas ou absurdas que possam parecer a miríade de temas abordados por McKenna, a leitura fluida e rápida pelos tópicos mais pirantes na leveza de uma entrevista, que volta e meia reaparecem sob novos prismas em ensaios, funciona caleidoscópicamente para o leitor. Não que suas idéias, é claro, possam ser aceitas com facilidade.

Válidas ou não, a verdade é que as teorias de McKenna repercutem polêmicamente no meio científico. Em que pese os que contestam seu cálculo da onda-tempo zero, McKenna é referência para vários pesquisadores importantes de àreas como biologia, etnobotânica, antropologia ou psicologia.

Mas essas teorias tem um outro subtexto, não científico: a gnose. A visão de mundo gnóstica tem tido um crescente reavivamento de interesse desde a descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi, Egito, em 1945. O conhecimento da gnose, que se desenvolveu com o cristianismo e teria raízes em certas seitas gregas, foi praticamente extinto no terceiro século da era cristã por dizimação e perseguição da igreja apostólica. Os manuscritos descobertos no Egito oferecem visões insuspeitadas dos mitos e memes bíblicos, versões diferentes do Gênese, intensa valorização do feminino em certos textos, novas facetas de um cristo irreconhecível talvez, textos pagães, retorno da mitopoética já presente em toda a tradição gnóstica ocidental como no Pistis Sofia descoberto no século dezenove.

A Gnose nos diz que vivemos no mundo do demiurgo, um mundo falso criado por um falso deus que se vale dos seus asseclas, os reguladores ou arcontes, para manter a ordem. Além deste mundo estaria o Pleroma, onde respira a vibração cósmica do Logos, o verdadeiro criador. Uma interpretação simplificada desse mito iniciático significa que vivemos na ilusão de um ego que é o próprio inimigo do homem pois a respiração cósmica não está fora mas dentro dele mesmo, enquanto o ego o mantém na ilusão da existência.

Esta visão brevíssima e superficial da mitopoética gnóstica aparece sob diversas formas nos evangelhos achados em Nag Hammadi. As versões inusitadas e surpreendentes do Cristo e de mitos do velho testamento tem sido exploradas com profundidade e ousadia pela estudiosa Elaine Pagels, que acrescenta sua visão feminina e polêmica das interpretações bíblicas de Nag Hammadi contrapostas às da igreja tradicional.

Theilhard de Chardin, sob o viés mesmo do catolicismo, explorou hipóteses de inegável fundo gnóstico como a do Ponto Ômega de convergência e do Logos, que atribui ao Deus católico. Não obstante a predominância de tal religião sobre sua cosmovisão místico-científica, a Igreja proibiu que o estudioso publicasse seus estudos em vida, só vindo estes a lume post-morten, no que poderia muito bem se admitir que o principal motivo dessa censura fosse a presença subliminar de conceitos gnósticos nas teorias de Chardin.

A gnose e a visão do mundo ao contrário cabe bem em nosso mundo de crescente virtualização. A inversão, o pulo no espelho do Orfeu de Cocteau como estrátegia de conhecimento e de iniciação, tema constante, mesmo um leitmotiv em tantos filmes e ficções do presente como Matrix, o Show de Truman, A vida em preto e branco (Pleasantville), para ficar em apenas três filmes recentes, nos quadrinhos Promethea de Alan Moore, na adoração que artistas como Lydia Lunch ou a banda Sonic Youth lhe devotam, no mito da alucinação consensual coletiva dos cyberpunks como William Gibson, em teses de críticos musicais influentes como Greil Marcus, a arquitetura visionária de Paolo Soleri ou o desenho animado Aeon Flux.

Se o pop ficou gnóstico, é questão a se discutir. Mas o fato é que a gnose pode fornecer muitas chaves para se entender a ficção e ou fenômenos reais como o Heaven’s Gate, mas igualmente para se ler McKenna e o fundo místico de suas idéias.

Não à toa, Erik Davis, brilhante jornalista, entre outros, do Village Voice e da famosa revista Gnosis, criou o termo de tecnognose. O livro, Techgnosis, saiu no ano passado e foi bastante elogiado por sua “história profana” da gnose em nossa época secularizada. Davis enxerga gnose nos lugares mais escondidos, de notas de dólar à arquitetura administrativa, de enredos de séries de tevê a supermercados, e simbologias antes ocultas, mas cotidianas e casuais ressurgem com outra aparência, o desvelar arcano de seu significado. Davis por assim dizer reencanta o mundo reificado da globalização corporativa capitalista com novas interpretações de ritos simbólicos repetidos infinitamente em escala mundial. O próprio conceito da tecnognose seria mesmo essa relação contemporânea de simbiose da tecnologia com a mística gnóstica no subconsciente contemporâneo.

Aqui se encaixa perfeitamente a união que McKenna faz da ciência com a exploração iniciatória dos limites da imaginação e do êxtase. Seu otimismo entusiasmado em relação às possibilidades da realidade virtual como libertadora da linguagem seria um exemplo entre tantos de uma tecnognose mckenniana.

De qualquer forma, a presença de McKenna é um espectro subliminar mas constante no imaginário atual. Suas idéias inspiram bandas eletrônicas como Spacetime Continuum e System 7, tribos de zippies e ravers, quadrinhos como Os Invisíveis de Grant Morrison, sites psicodélicos ou contraculturais como o Levity (www.levity.com), Disinformation (www.disinfo.com), The Bomb (www.barbelith.com/bomb/) ou Hyperreal(www.hyperreal.org).

Tudo bem, depois de tudo que foi dito acima, pode ser que você ainda não veja razão alguma para ler McKenna. Mas pare um pouco. Lembra daqueles livros que depois de ler ainda ficam vários dias mexendo com as idéias de sua mente? É…Aquela sensação de barato, sabe, estado alterado de consciência atingido sem nenhuma droga ou estimulante, como o estado de graça em que a gente fica quando assiste um filme maravilhoso. Pois o barato de McKenna é justamente esse. Só de ler você já fica chapado. E consciente.

Agosto de 2000


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.